De 2 a 30 de Março de 2009
5 aulas, às segundas-feiras, das 18h30 às 20h30h

Neste curso será abordada umas das cinematografias mais originais dos últimos cinquenta anos. O estilo despojado, onde nada devia estar a mais nem a menos, é o oposto do espectáculo, sem, no entanto, se tornar abstracto ou teórico.
Os diálogos reduzem-se a enunciados sem entoação, os actores não representam - todos cumprem destinos silenciosos e encontram a libertação por trilhos do acaso.
No entanto, Robert Bresson queria que o silêncio e ruídos se tornassem música - a música de todos os dias. Sensualmente, como os olhares que se cruzam, as mãos que quase se tocam e os seres que se redimem, a câmara também se move sem que a técnica seja detectada. A sua função é paralela ao vento que sopra onde quer, religando o visível ao invisível.

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    Por coincidência, até ao final de Março decorre na Cinemateca um ciclo dedicado a Robert Bresson, cuja programação pode ser consultada aqui.
    A retrospectiva iniciou-se com uma instalação escultórica de Rui Chafes, dedicada ao realizador, sob o lema do Pickpoket e lançamento de livro com textos e poemas de João Miguel Fernandes Jorge, que inclui fotografias feitas por Rita Azevedo Gomes a partir dos filmes.

Sessões aulas no AR.CO.

Sessões Cinemateca

2 - 3– Les Dames du Bois de Boulogne

1- Les dames du bois de Boulogne- dia Sex. 27 de Fevereiro 19:00 - Sala Dr. Félix Ribeiro

9- 3- Un Condamné à Mort s'Est Échappé + Pickpoket

3- Un Condamné à Mort s'Est Échappé- Cinemateca dia 6-3-09 19:00h + Pikpocket – Cinemateca- dia 19 de Fevereiro - 21:30

16-3- Le Procés de Jeanne d’Arc

4- Le Procés de Jeanne d'Arc- Cinemateca dia 9-3 19 :00h

23-3- Au Hasard Balthazar

5- Au Hasard Balthazar- Cinemateca dia 11-3 21.30h

30-3- Mouchette

6- Mouchette- Cinemateca 25-3-09 19:30


Robert Bresson: Acredito na musa do cinema. Degas dizia: "As musas não falam entre si, elas dançam juntas"-no programa de televisão Pour le Plaisir de 11 de Maio de 1966 dedicado a "Au Hasard Balthazar".

2.3.09

Robert Bresson


Nasce a 25 de Setembro de 1901 no solar de uma antiga família em Bromont-Lamothe (Puy-de-Dôme). Frequenta o Liceu Lakanal (Sceaux), onde termina o bacharelato em Latim, Grego e Filosofia antes de se dedicar à Pintura, que estuda e pratica numa altura em que também colecciona pintura contemporânea, sobretudo obras de Max Ernst, de quem é amigo.

Sobre este período da sua vida, confidencia em entrevista ao Le Monde, em 1971: "aos 17 anos não tinha lido nada e nem sequer compreendia como tinha conseguido passar os exames de bacharel. Aquilo que recebia da vida não eram ideias traduzidas em palavras, eram sensações. Música e Pintura — formas, cores — eram para mim mais verdadeiras que todos os livros conhecidos. Nessa época, um romance parecia-me uma farsa. Mais tarde, e com que apetite (!), tal era a necessidade que sentia, lancei-me sobre Stendhal, sobre Dickens, sobre Dostoievski, e ao mesmo tempo sobre Mallarmé, Apollinaire, Max Jacob, Valéry. Montaigne e Proust — pensamento, língua — impressionaram-me prodigiosamente".

A atracção pelo cinema, a que chega depois da pintura e da fotografia, remonta ao fim dos anos 20, sobretudo a partir da "descoberta" de Charles Chaplin, Robert Flaherty e Jean Cocteau. Na década de 30, adquire o essencial da sua formação intelectual e artística, bem como o cristianismo rigoroso (que normalmente se associa ao jansenismo, tão referido a propósito da sua obra), a tendência para o isolamento e também para a investigação em torno das artes visuais.

João Bénard da Costa, Folhas da Cinemateca, Cinemateca Portuguesa, Setembro de 2001.

Filmografia

_1934 > Les Affaires Publiques-Inédito comercialmente em Portugal-Primeira apresentação em Portugal: Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema, a 1 de Junho de 1990
_1944 >Les Anges du Péché-Estreia mundial: 23 de Junho de 1944-Inédito comercialmente em Portuga-lPrimeira apresentação em Portugal: Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, integrado no Ciclo Robert Bresson, a 5 de Abril de 1978

_1945 >Les Dames du Bois de Boulogne-Estreia mundial: Paris, 21 de Setembro de 1945-Inédito comercialmente em Portugal-Primeira apresentação em Portugal: Cine Clube do Porto, Cinemas Batalha e Águia de Ouro, a 21 de Novembro de 1954

_1951 >Journal d'un Curé de Campagne-Estreia mundial: Festival de Veneza, 1951-Inédito comercialmente em Portugal frequentes exibições, em cine-clubes, nos anos 50, em cópia jamais distribuída-Primeira apresentação em Portugal: Iniciativa do Centro Cultural de Cinema (Cine-clube de universitários para uma cultura cristã) a 30 de Maio de 1957, no Jardim Cinema

_1956 >Un Condamné à Mort s'est Echappé (ou Le Vent Souffle ou Il Veut) -Estreia Mundial: Paris, 4 de Dezembro de 1956- Estreia em Portugal: Cinema Império, a 14 de Abril de 1959

_1959 >Pickpocket-Estreia Mundial: Paris, 12 de Janeiro de 1960-Estreia em Portugal: Cinema Tivoli, 26 de Junho de 1961

_1962 >Procès de Jeanne d'Arc-Estreia Mundial: Festival de Cannes, 30 de Maio de 1962-Inédito comercialmente em Portugal-Primeira apresentação em Portugal: nos anos 60, em sessão privada no São Luiz

_1966 >Au Hasard Balthazar-Estreia Mundial: Paris, 6 de Maio de 1966-Ante-Estreia em Portugal: Cinema Londres, a 26 de Novembro de 1972-Estreia em Portugal: Cinema Satélite, a 12 de Julho de 1974

_1967 >Mouchette-Estreia Mundial: Paris, 28 de Maio de1967-Estreia em Portugal: Cinema Vox, a 3 de Julho de 1972

_1969>Une Femme Douce Estreia Mundial: Paris, 28 de Agosto de 1969-Estreia em Portugal: Cinema Estúdio (Porto), a 21 de Julho de 1970

_1971 >Quatre Nuits d'un Rêveur-Estreia em Portugal: Lisboa(cinema Estúdio), 5 de Janeiro de 1972

_1974 > Lancelot du Lac-Estreia Mundial: Festival de Cannes, Maio de 1974- Estreia em Portugal: Cinema Ávila, em 29 de Maio de 1998

_1977 > Le Diable Probablement-Estreia Mundial: Paris, 14 de Junho de 1997-Inédito comercialmente em Portugal Primeira apresentação em Portugal: Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, integrado no Ciclo Robert Bresson, em Abril de 1978

_1983 >L'Argent-Estreia Mundial: Paris, 18 de Maio de 1983, depois de exibido no Festival de Cannes, Maio de 1983- Inédito comecialmente em Portugal- Primeira apresentação em Portugal: Cinemateca Portuguesa, a 19 de Setembro de 1983

in- Folhas da Cinemateca, Cinemateca Portuguesa, Setembro de 2001

Bibliografia

Escritos de Bresson

• Bresson,Robert, Notas sobre o Cinematógrafo, tradução de Pedro Mexia, Elementos Sudoeste, Porto Editora,(Janeiro 2004)
• Bresson, Robert.
"Notes on Sound."Translated by Jonathan Griffin. In Film Sound: Theory and Practice, edited by Elisabeth Weis and John Belton, 149. New York: Columbia University Press, 1985.
• Bresson, Robert. "Qui? Pourquoi? Comment?" Cahiers du cinéma, no.161-162
(January 1965): 14,15
• Bresson, Robert. "Réponse de Robert Bresson á François Leterrier." Cahiers du cinéma, no. 67 (January 1957): I.

Textos acerca de Bresson

• Armes, Roy. "Innovators and Independents: Robert Bresson." In Great Film Directors: A Critical Anthology, edited by Leo Braudy and Morris Dickstein. New York: Oxford University Press, 1978.
• Arnauld, Philippe. Robert Bresson. Cahiers du cinéma. Collection "Auteurs." Paris: Cahiers du cinema, 1986.
• Ayfre, Amédée. "The Universe of Robert Bresson." In The Films of Robert Bresson, edited by Ian Cameron. New York: Praeger Publishers, 1970.
• Bazin, André. "Le Journal d'un curé de campagne and the Stylistics of Robert Bresson." In What is Cinema 2 Volumes, edited and translated by Hugh Gray. California: University of California Press, 1967.
• Bordwell, David, and Kristen Thompson. "Sound in the Cinema. Functions of Film Sound: A Man Escaped. " In Film Art: an Introduction. Reading, Mass.: Addison-Wesley, 1979.
• Ciment, Michel. "I Seek Not Description But Vision: Interview with Robert Bresson." Projections 9, edited by Walter Donohoe and John Boorman, translation Pierre Hodgson. London: Faber and Faber Limited, 1998.
• Daney, Serge and Serge Toubiana. "Entretien avec Robert Bresson." Cahiers du cinéma, nos. 348-349 (June/July 1983): 12-15.
• Delahaye, Michel and Jean-Luc Godard. "The Question: Interview with Robert Bresson." Cahiers du cinéma in English, no.8 London: British Film Institute
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• Hanlon, Lindley. Fragments: Bresson's Film Style. Rutherford N.J.: Fairleigh Dickinson University Press, 1986.
• Hodara, Philippe. "Entretien avec Robert Bresson." Lumière du cinéma, no.6(July/August 1977):15-17, 80.
• Hourigan, Jonathan. "On Two Deaths and Three Births. The Cinematography of Robert Bresson." Stills I , no. 3 (Autumn 1981): 27-38.
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• Lambert, Gavin. "Un condamné á mort s'est échappé." Sight and Sound 27, no.I (Summer 1957): 32-33, 53.
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• Lopate, Philip. "Films as Spiritual Life." Film Comment 27, no.6 (November/ December 1991): 26-30.
• Magny, Joël. "L'expérience intérieur de Robert Bresson." Cinéma 72-92, no.294 (June 1983): 19-26.
• Murray, Leo. "Un Condamné à Mort s'est Échappé." In The Films of Robert Bresson, edited by Ian Cameron. London: Studio Vista Limited, 1969.
• Oudart, Jean-Pierre. "Bresson et la vérité."
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• Polhemus, Helen M. "Matter and Spirit in the Films of Robert Bresson." Film Heritage 9, no. 3 (Spring 1974):12-16.
• Prédal, Réné. "Robert Bresson: L'Aventure intérieure." L'Avant-Scène, nos. 408/409 (January/February 1992.)
• Quandt, James, ed. "Introduction." In Robert Bresson. Toronto: Toronto International Film Festival Group, 1998.
• Reader, Keith. "D'où cela vient-il? : Notes on three films by Robert Bresson." French Studies 40, no. 4,1986.
• Richie, Donald. "Bresson and Music." In Robert Bresson. edited by James Quant. Toronto: Toronto International Film Festival Group, 1998.
• Rosenbaum, Jonathan. "The Last Filmmaker: A Local, Interm Report."Chicago Reader (26 January 1996).
• Samules, Charles Thomas. "Robert Bresson." In Encountering Directors. New York: Capricorn Books, 1972.
• Schofer, Peter. "Dissolution in to Darkness: Bresson's Un Condamné á mort s'est échappé." Substance, no. 9 (1974):59-66.
• Schrader, Paul. Transcendental Style in Film: Ozu, Bresson, Dreyer. Berkeley and Los Angeles: University of California Press, 1972.
• Sitney, P. Adams. "Cinematography vs. the Cinema: Bresson's Figures." In Modernist Montageby P. Adams Sitney. Columbia University Press, 1989.
• Sloan, Jane. Robert Bresson: a guide to references and resources. Boston, Mass.: G.K. Hall, 1983.
• Sontag, Susan. "Spiritual Style in the Films of Robert Bresson." In Against Interpretation by Susan Sontag. New York: Farrar, Straus & Giroux, Inc.,1964
• Thiher, Allen. "Bresson's Un Condamné À Mort: The Semiotics of Grace." In The Cinematic Muse: Critical Studies in the History of French Cinema by Allen Thiher. Missouri: University of Missouri Press, 1979.

Online: Encountering Directors-Charles Thomas Samuels -Intervews- Robert Bresson,Paris, September 2, 1970

Cinematógrafo

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Quando não sabes o que fazes» e que o que fazes é o melhor, é isso a inspiração

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Traduzir o vento invisível pela água que ele esculpe ao passar

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Esvaziar o tanque para apanhar os peixes

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Não uma bela fotografia, não belas imagens, mas imagens e fotografias necessárias

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Provocar o inesperado. Esperá-lo

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Não corras atrás da poesia. Ela introduz-se por si mesma através das articulações

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Modelo. Ele fecha-se em si mesmo. Assim faz x, excelente actor. Mas é para reaparecer máscara de jogo, irreconhecível

*

Problema: fazer ver o que vês por intermédio de uma máquina que não o vê como tu vês

*

OS LAÇOS QUE ESPERAM OS SERES E AS COISAS PARA VIVER

*

Faz aparecer o que sem ti porventura nunca seria visto

*

O verdadeiro é inimitável, o falso intransformável

*

Querem encontrar a solução aí onde só há enigma (Pascal)

*

Comunicar impressões, sensações

*

Retocar o real com o real

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Montagem. Fósforo que sai de repente dos teus modelos, flutua em redor deles e liga-os aos objectos.

(azul de Cézanne, cinzento de Greco)

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Ritmos.

O poder supremo dos ritmos.

Não é durável se não o que é captado pelos ritmos.

Dobrar o fundo à forma e o sentido aos ritmos

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Qualidade de um mundo novo que nenhuma das artes existentes deixaria suspeitar

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O real não é dramático. O drama nascerá de uma certa marcha de elementos não-dramáticos

Expressão por compreensão. Pôr numa imagem o que um literato demoraria por dez páginas

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Com o nítido e o preciso forçarás a atenção dos desatentos de olhos e de ouvidos

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O real em bruto não resulta por si mesmo no verdadeiro

*

No rito católico-grego: «Está atentos!»

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A emoção nascerá de uma mecânica, do constrangimento a uma regularidade mecânica.

Pensar em certos grandes pianistas para o compreender

*

Fazer leis de ferro nem que seja para obedecer ou desobedecer com dificuldade

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Dar aos objectos o ar de terem vontade de lá estar

Olha como um pintor. O pintor cria ao olhar

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Que poder têm as coisas que conseguimos por acaso!

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Tirar as coisas do hábito, descloroformizar

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O silêncio é necessário à música mas não faz parte da música. Ela apoia-se nele

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Cézanne: «a cada pincelada arrisco a vida»

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