«Figura de Cristo (a paixão, a subida ao Calvário — o que por alguns foi julgado fortemente blasfematório) é figura dum divino sem poder ("quis um burro preto, meio funcionário, meio padre", disse Bresson), de certo modo, figura também do ordenador que o realizador quer ser ("O burro sou eu" — também disse Bresson). É dele que vem a mise-en-ordre, que dispõe as peças soltas desta insólita narrativa (tão soltas que algumas há — como a conversa dos pintores sobre a cascata — que parecem não ter qualquer articulação com o resto). É dele que vem a carga mítica desta obra, polarizando num erotismo latente (referência à mitologia quando Gérard insinua uma relação burro-Marie), que não é dos seus múltiplos e complexos aspectos (inesgotáveis numa folha) nem o menos inquietante nem o menos ambíguo».
João Bénard da Costa, Folhas da Cinemateca, Cinemateca Portuguesa, Setembro de 2001
Jornalista: Há algo de bastante perturbador, obscuro e ambíguo na relação de Marie com Balthazar...
Robert Bresson: É amor com um objecto não muito claro. Os adolescentes podem apaixonar-se por algo muito vago, muito indefinido. O amor precisa de ter um objecto. O objecto de amor dela não é o burro. Penso que o burro é apenas um intermediário.
Anne Wiazemsky: Eu acho que é uma manifestação de ternura... talvez mesmo de amor, talvez. No fim de contas, é comum enfeitar os animais que estimamos com flores.
Jornalista: Mas não de noite...
Anne Wiazemsky: Porque não, se estivermos acordados?
Robert Bresson: A grande dificuldade é que toda a arte é abstracta e sugestiva ao mesmo tempo. Não é preciso mostrar tudo. Quando mostramos tudo, deixa de ser arte. A grande dificuldade no cinematógrafo é precisamente não mostrar. O ideal seria não mostrar nada mas isso é impossível.
Excerto do programa de televisão
Pour le Plaisir,11 de Maio de 1966.

Bresson associa o burro a um episódio na vida de Santo Inácio de Loyola quando este quis matar um mouro que, pensava ele, tinha ofendido a Virgem Maria. Enquanto perseguia o “infiel”, contudo, Inácio sentiu escrúpulo e deixou que a sua mula decidisse o que fazer. “O animal escolheu a via da clemência, não a do castigo”
[…]
O burro é a Bíblia inteira, o Antigo e Novo Testamento”
[…]
Dependendo das mãos a que vai parar, ele sofre do orgulho, avareza, da necessidade de infligir sofrimento, ou sensualidade, e finalmente morre. Ele é um pouco como o personagem Charlot nos primeiros filmes de Chaplin, mas não é mais que um animal, um burro, que traz com ele o erotismo e ao mesmo tempo uma espécie de espiritualidade ou Cristianismo místico»
Entrevista televisiva com Roger Stéphane, in Télé-ciné, nº 173, (Março-Abril 1967), p. 4.
René Maurice, “De Lucifer à Balthazar, en suivant Robert Bresson, Luimère et vie, nº 78 (1966, p. 46. Cit por Joseph Cunneen, Robert Bresson, A Spiritual Style in Film, Continnum, New York, 12003.
Burro que restituiu a lucidez ao Príncipe Mishkin:
«... Não podia ligar mais de duas ou três ideias seguidas. Pelo menos, assim me parece. Quando os ataques paravam, voltava a ser saudável e forte, como agora. Lembro-me: sentia uma tristeza insuportável, tinha até vontade de chorar. Tudo me parecia estranho, e estava constantemente inquieto, atormentava-me muito que tudo fosse alheio. Isso sim, eu percebia-o. Feria-me o alheio. Uma vez, à noite, despertei completamente dessas trevas, lembro-me, foi em Basileia, na fronteira da Suiça; acordou-me o zurrar de um burro numa feira urbana. O burro deixou-me estupefacto e, sabe-se lá porquê, gostei muito dele, e com isso, de repente, foi como se tudo ganhasse clareza.

— Um burro? É estranho — observou a generala. — Aliás, não há nada de estranho nisso, alguma das presentes é capaz de apaixonar-se até por um burro...»
Dostoiévski, O Idiota, tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, Editorial Presença Julho 2001, p. 60.

“Man 1: Et puis, jaillissent sur ma toile une multitude de structures dont je ne suis pas le maître et comportant chacune une dialectique. Ce n’est pas la cascade que je vise mais ce qu’elle me dictera. D’ailleurs sans aucun rapport logique avec elle. Sa chûte me mettera en mouvement.
Man 2: Une peinture cérébral? Une peinture de pensée?
Man 1: Une peinture d’action, ‘action painting.’”
S: Most of your films are adaptations. Why did you create both story and script for Pickpocket and Au hasard, Balthazar ?
B: In the latter case, I can answer the question simply. One day I saw very clearly a donkey as the center of a film, but the next day that image faded away. I had to wait a long time for it to return, but I always wanted to make this film. You may recall that in Dostoyevsky's The Idiot Prince Myshkin says he recovered his good spirits by seeing a donkey in the marketplace. Pickpocket is another matter. I have always liked manual dexterity and, when young, made balancing toys, juggled, etc. I've never understood intellectuals who put dexterity aside.
S: Everything you say points to your belief that the human mind isn't enough.
B: Our senses tell us more than our intelligence.
You told Godard that you prefer as often as possible to replace image by sound. Why?
B: Because the ear is profound, whereas the eye is frivolous, too easily satisfied. The ear is active, imaginative, whereas the eye is passive. When you hear a noise at night, instantly you imagine its cause. The sound of a train whistle conjures up the whole station. The eye can perceive only what is presented to it.
(:..)

S: Why did you include in Au hasard, Balthazar that short scene with the action painter?
B: He sits on a clever donkey; I make him speak nonsense.
S: Do you know how this has been interpreted?
B: That I like action painters?
S: Yes. Not only that, but that he symbolizes your method as a director because he says that his paintings catch the essence of a thought. But that is obviously wrong.
B: Originally, I had three other people talk in that scene, but I cut them out while editing because the scene was too long.
Charles Thomas Samuels INTERVIEWS Robert Bresson,Paris, September 2, 1970 Ver também:
Raymond Watkins, Portrait of a Donkey: Painterly Style in Robert Bresson’s Au hasard Balthazar